Feridas narcísicas e o luto pela masculinidade


Este texto não tem o objetivo de atacar o ser homem, mas de convidar à reflexão sobre a forma como a masculinidade tem sido construída ao longo da história e quais são os impactos disso na forma como nos relacionamos hoje.

De acordo com a historiadora e professora Gerda Lerner, o patriarcado é um sistema social que organiza a subordinação das mulheres e a predominância masculina nas esferas familiar, econômica e política.

Esse sistema não surgiu de uma hora para outra, ele foi construído minuciosamente por cerca de 2500 anos e acabou moldando a forma como entendemos os papéis sociais, o poder e até mesmo a nossa identidade, sendo pouco questionado e visto como parte normal da organização da sociedade durante muito tempo.

No entanto, a partir do século XIX esse cenário começou a mudar, através do movimento feminista, que passou a ganhar mais estrutura e consequentemente, mais força e trouxe questionamentos importantes sobre o sistema patriarcal, reivindicando maior equilíbrio entre homens e mulheres. Não se trata de inverter posições de poder, mas de repensar como esses espaços podem ser ocupados de forma mais justa.

Podemos pensar, a partir de Sigmund Freud, que esse momento pode ser vivido como uma espécie de “ferida narcísica”, conceito que Freud usava para falar de situações em que a forma como nos enxergamos é abalada por verdades que fogem do nosso controle.

Nesse contexto, a ideia de igualdade entre homens e mulheres pode ser sentida, por alguns homens, como um impacto direto em uma identidade que foi construída ao longo de muito tempo, assim como a teoria da evolução de Charles Darwin, que questionou a ideia de que o ser humano ocupava um lugar especial na natureza.

Para alguns homens, o surgimento de uma nova construção social onde o masculino não está no centro do poder, pode gerar confusão, insegurança ou sensação de perda e em alguns casos, manifestando-se como um movimento de resistência, embasado em diferentes formas de violência, seja por manipulação psicológica, por política na retirada de direitos das mulheres ou por força, como podemos observar no  aumento dos casos de feminicídios ocorridos no Brasil.

Em contra partida à resistência mencionada acima, surge um grupo de homens que consegue ver e abraçar a possibilidade de construir uma nova forma de masculinidade que não os obriga a se apoiar na dominação, no controle ou na repressão emocional, mas que os permite abrir espaço para relações mais equilibradas e saudáveis que não vê como perda o crescimento da autonomia feminina, a conquista de direitos e a ampliação de espaços, mas como uma oportunidade de reorganizar a forma como nos relacionamos.

Nos reorganizar como sociedade não é "castrar" o ser masculino e sim, possibilitar que todas as identidades de gênero sejam abertamente consideradas, respeitadas e abraçadas, em todas as suas qualidades e defeitos. É poder trazer para a história da humanidade um novo cenário onde há espaço para o diálogo, choro, delicadeza, respeito e equidade e não para a agressão, o medo imposto, o trauma e a falta de controle emocional.

Resistir a essas mudanças é também resistir a evolução dos seres humanos como espécie apenas para reforçar uma estrutura que há muito tempo não nos representa mais. A sociedade é o que nós fazemos dela.

Referências:

  • Livro: A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens, de Gerda Lerner;
  • Sobre o narcisismo: uma introdução de Sigmund Freud


Autora: Maressa Murbach


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