O princípio do prazer e o mal-estar contemporâneo
Você certamente já conheceu, ou é, alguém que ao sentir fome muda completamente de humor. Fica irritado, inquieto, incomodado e, imediatamente após se alimentar, volta a ficar bem, mais leve, até mais feliz. Esse pode parecer um exemplo bobo, afinal, quem ficaria bem com fome? Mas ele ilustra de forma simples o chamado princípio do prazer, apresentado por Sigmund Freud.
O princípio do prazer é tão primitivo que pode ser observado desde o nascimento. Um bebê chora porque quer colo, porque não quer ir com outra pessoa além da mãe, porque busca o peito, mesmo quando não está necessariamente com fome. Trata-se de uma tendência básica dos seres humanos: a busca por alívio e satisfação, e o afastamento de qualquer forma de desconforto ao qual estamos sujeitos.
Se analisarmos superficialmente, esse princípio não parece algo negativo. Ele nos impulsiona a buscar conforto, segurança e bem-estar. Ao longo do tempo, desenvolvemos tecnologias que facilitaram nossa rotina, reduziram esforços e nos protegeram de diversos perigos. Já não precisamos mais passar horas lavando roupa manualmente, caçando na floresta ou lidando diretamente com condições extremas de frio e calor. Mas então qual é o problema?
A questão não está no prazer em si, mas na forma como passamos a nos relacionar com ele. Aos poucos, fomos associando prazer à ideia de felicidade, enquanto evitamos cada vez mais qualquer tipo de desconforto. Vivemos, então, em uma espécie de batalha constante para não sentir aquilo que nos desagrada.
A felicidade deixou de ser uma experiência pontual e passou a orientar nossas escolhas diárias. Ela aparece nos likes, nos compartilhamentos, nos vídeos curtos, nas respostas imediatas, nas validações constantes e até mesmo nas críticas que recebemos online. E, no meio disso tudo, uma pergunta silenciosa insiste em emergir: se tudo está tão acessível, por que ainda me sinto vazio?
O dinheiro cai na conta em segundos, as mensagens chegam instantaneamente, temos acesso a filmes, séries, notícias, memes, shows, esportes e até imagens de lugares que nunca visitamos, do fundo do oceano ao espaço. Nosso cérebro entra em um ciclo constante de busca por recompensa, reforçando comportamentos que prometem satisfação rápida e existe um efeito importante nisso: quanto mais nos acostumamos com estímulos intensos e imediatos, mais rapidamente nos adaptamos a eles e menos eles nos satisfazem.
A busca pela felicidade começa, então, a se confundir com a busca por alívio imediato e nesse processo, podemos começar a nos comportar de forma compulsiva, repetindo padrões que prometem preenchimento, mas que, no fundo, apenas alimentam a sensação de vazio. Presos nesse ciclo vicioso, acabamos esquecendo que existem emoções igualmente importantes esperando espaço para existir, e entre elas aquela que mais evitamos, está a tristeza.
A tristeza não é o oposto da felicidade. Ambas fazem parte da experiência emocional humana. O oposto, muitas vezes, é justamente o vazio, a ausência de contato com aquilo que se sente.
Na série Anne with an E há um diálogo que chama atenção por traduzir bem essa ideia:
"É completamente insensato querer ser feliz o tempo todo. Na verdade, não é possível e nem realista. Não se sabe o que é alegria sem experimentar a tristeza. Aqueles que conseguem voar mais alto também conseguem afundar nas maiores profundezas."
Este texto não tem o objetivo de romantizar a tristeza, nem de banalizar sua existência, mas de provocar uma reflexão sobre como lidamos com ela. Passamos a evitá-la como se fosse uma ameaça constante, quando, na verdade, ela faz parte do mesmo sistema emocional que sustenta a alegria, a raiva, o medo e até o tédio.
Essas emoções são naturais, biológicas e precisam de espaço para serem reconhecidas e vividas de forma consciente, não apenas racionalizadas, mas sentidas.
Quando emoções são constantemente evitadas ou ignoradas, elas não desaparecem. Em alguns casos, podem se manifestar no corpo. O sistema nervoso reage ao acúmulo de tensão emocional e pode gerar respostas físicas como desconfortos, dores, alterações na respiração ou até quadros mais intensos, como crises de ansiedade.
Esse processo conhecido como somatização, acontece quando o corpo expressa aquilo que, por diferentes motivos, não foi elaborado no nível emocional. Essa expressão nem sempre é sutil, ela pode surgir de forma inesperada, em diferentes contextos do dia a dia, sem pedir licença e sem respeitar o contexto.
Talvez o ponto mais importante não seja tentar eliminar o vazio a qualquer custo, nem buscar estar bem o tempo todo, talvez, seja aprender a escutar o que ele está tentando nos dizer e aprender a lidar com isso, aceitando que nem sempre estaremos bem e que é necessário expressar nossa dor.
Aprender a expressar nossas emoções não é perder o controle, e sim, uma forma de retomá-lo. Porque sentir não é o problema, o problema é não saber o que fazer com aquilo que sente.
Referências:
- Sigmund Freud – O mal-estar na civilização
- Robert Sapolsky – Behave
- Lisa Feldman Barrett – How Emotions Are Made
Autora: Maressa Murbach

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